Por que o fast fashion e sustentabilidade não podem andar juntos?

O que você faz com suas roupas quando você não as quer ou não lhe servem mais? Doa? Vende? Joga fora? Não importa se elas percorrem um caminho mais longo ou mais curto, os destinos finais de suas roupas provavelmente vão ser os aterros e lixões e, acredite, esse é só um dos problemas quando falamos de fast fashion.

Há cinco anos, surgiu um movimento chamado Fashion Revolution (Revolução da Moda). Esse movimento, criado por um conselho  global de líderes da indústria da moda sustentável, tem o objetivo de conscientizar a população sobre os alarmantes impactos ambientais e sociais da moda como é praticada hoje em dia. Esse movimento acontece em várias cidades do mundo desde 2013, na última semana de Abril, quando ocorrem palestras, oficinas, rodas de conversa e exibição de filmes, em grande parte com acesso livre e gratuito para a população.

O movimento começou depois do desabamento do edifício Rana Plaza, nos arredores de Daca, capital de Bangladesh, no dia 24 de abril de 2013. O acidente (se é que pode ser chamado assim) deixou 1.133 mortos e 2.500 feridos. Como exibido nos documentários The True Cost e Made in Bangladesh, o edifício Rana Plaza, de oito andares, abrigava milhares de trabalhadores da indústria têxtil que produziam roupas para grandes marcas de fast fashion ocidentais. O edifício encontrava-se com rachaduras e risco eminente de desabamento e uma ordem de evacuação foi dada. O dono do prédio ignorou a ordem e forçou os empregados a retornarem ao trabalho. O prédio desabou no dia seguinte à ordem de evacuação ignorada.

Impactos do fast fashion: edifício Rana Plaza após desabamento. O acidente causou a morte de 1133 pessoas e ferimentos em 2500
Foto: edifício Rana Plaza após desabamento. O acidente causou a morte de 1133 pessoas e ferimentos em 2500 (A.M. AHAD)

A tragédia do Rana Plaza chamou a atenção do mundo para o que estava acontecendo em Bangladesh. Na década anterior à tragédia, centenas de pessoas já haviam morrido em incêndios e colapsos de fábricas no país. Somados aos impactos sociais, a produção de roupas para fast fashion traz inúmeros impactos ambientais para vários países de terceiro mundo, onde legislações ambientais e trabalhistas, quando existem, não são obedecidas. 

Impactos sociais

  • A cultura do Fast Fashion (Moda Rápida) transformou roupas, bens produzidos para terem longa duração, em produtos descartáveis, dos quais nos desfazemos, muitas vezes, sem nem mesmo usar. Baixíssimos preços são colocados nessas roupas para incentivar seu consumo compulsivo, assim como seu descarte. Uma loja de fast fashion pode lançar até 52 coleções ao ano, com produtos novos chegando toda semana.
  • A cobrança das empresas de fast fashion sobre os donos de indústrias de países de terceiro mundo por custos de produção cada vez mais baixos faz com que as pessoas que as produzem (como as que morreram no Rana Plaza) recebam baixíssimos salários e sejam submetidas a regimes de trabalho abusivos. Tudo isso para que os preços dos produtos sejam reduzidos cada vez mais.
  • A indústria de moda global é uma indústria anual de quase três trilhões de dólares. As pessoas que confeccionam essas roupas em países como China e Bangladesh recebem, em média, 2 dólares por dia de trabalho.
  • A maior exportadora de roupas do mundo é a China, seguida por Bangladesh.
  • As indústrias de fabricação de roupas nesses países são chamadas de Sweatshops, isso mesmo, Fábricas de Suor em português! Recebem esse nome por serem indústrias que não obedecem leis trabalhistas, empregam crianças e mantém os trabalhadores em condições insalubres de trabalho.
  • 85% dos trabalhadores nessas indústrias de roupas são mulheres.
  • Várias empresas aqui no Brasil, muitas delas de luxo, já foram autuadas por submeterem seus trabalhadores a regimes de trabalho análogos à de escravo, como Bo-Bô e Le Lis Blanc, RiachueloZara e Luigi Bertolli.

Impactos ambientais

  • O mundo consome, atualmente, cerca de 80 bilhões de novas peças de roupa todos os anos! Isso é mais que 400% do que foi consumido há apenas duas décadas atrás.
  • Um americano joga fora, em média, 37 Kg de roupas por ano!
  • De acordo com a Re-Roupa, no Brasil, cerca de 170 mil toneladas de resíduos têxteis são descartados todos os anos. Cerca de 85% desse resíduo têm como destino aterros e lixões.
  • A medida que nosso apetite por roupas cresce, as plantações de algodão estão se modificando. Mais de 90% do algodão produzido hoje em dia é geneticamente modificado. O aumento das plantações demanda um consumo cada vez maior de água e pesticidas. Pesticidas são chamados de narcóticos ecológicos, pois quanto mais usamos, mais precisamos.
  • A região de Punjab, na Índia, é uma das grandes produtoras de algodão do país, e também maior usuária de pesticidas. O número de crianças que que nasceram com defeitos congênitos, cânceres e doenças mentais cresceu exponencialmente nos últimos anos.
  • A produção de couro para a moda também traz uma série de problemas para o meio ambiente devido a quantidade de terras, água, alimento e combustíveis fósseis (recursos não renováveis, como comentei aqui) que a produção de gado demanda.
  • O processo usado para curtir o couro também é um dos mais tóxicos de toda  cadeia da moda. Trabalhadores, normalmente, são expostos às substâncias químicas sem equipamentos de segurança e os resíduos produzidos no processo são despejados nos rios sem tratamento prévio, contaminando as águas e matando animais aquáticos.

Fast fashion e sustentabilidade podem andar juntos?

Através da moda, expressamos nossa personalidade, gostos e nos comunicamos com o mundo e, por iss0, ela é muito importante. Porém, o modelo de moda mais difundido atualmente, o fast fashion, que lança 52 coleções ao ano, incentiva o consumo e o descarte compulsivos de roupas e coloca preços cada vez mais baixos nelas à custa dos salários e direitos trabalhistas de quem as produz não é um modelo de moda sustentável.

Existem outros modelos de moda se difundindo atualmente, como o Slow Fashion, que buscam uma produção mais sustentável, ecologicamente correta e socialmente justa, mas eles são tema para um outro post. Enquanto isso, recomendo o aplicativo Moda Livre, criado pelo coletivo Repórter Brasil.

Ele está disponível para Android e iOS e mostra medidas que as marcas têm tomado para evitar que suas roupas sejam produzidas por mão de obra escrava. As principais empresas do país, inclusive aquelas que já foram flagradas usando trabalho escravo, foram convidadas para responder um questionário baseado em quatro indicadores: políticas, monitoramento, transparência e histórico. As respostas a essas perguntas geram uma pontuação e a partir dela, as empresas podem ser classificadas em três categorias de cores: verde (melhor avaliação), amarelo (avaliação intermediária) e vermelha (pior avaliação). Esse aplicativo pode ser usado por nós como um guia na hora de comprarmos nossas roupas pois, não comprando em empresas mal avaliadas, não financiamos suas ações. Além disso, podemos ter sempre em mente o ultimato de Vivienne Westwood, estilista inglesa: “Compre menos, escolha bem e faça durar”.

O aplicativo moda livre avalia marcas da moda em relação ao trabalho escravo, muito comum, especialmente em marcas de fast fashion
Imagem: aplicativo Moda Livre (www.lilianpacce.com.br)

 

 

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